14,1 milhões de votos em disputa: o que a análise dos dados do TSE ensina sobre BI
No dia seguinte ao segundo turno das eleições de 2026, quase todo mundo fez a mesma pergunta: quem ganhou? A resposta estava em todos os jornais. Nós resolvemos fazer outra pergunta, menos óbvia e bem mais útil para entender o que aconteceu: quantos votos estavam realmente em disputa entre o primeiro e o segundo turno, e para onde eles foram?
Para responder, abrimos os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cruzamos bases diferentes e conferimos se a conta fechava. O resultado é um bom retrato de como funciona uma análise de dados de verdade, e de por que ela vale para qualquer empresa, não só para eleições. Trocando "votos" por "clientes", "faturamento" ou "estoque", as perguntas são as mesmas.
Neste artigo mostramos os números que encontramos e, principalmente, o caminho até eles. Não há opinião política aqui: só dados públicos e o método para lê-los.
O que significa "votos em disputa"
No primeiro turno, 125,3 milhões de pessoas foram às urnas. No segundo, 128,2 milhões. Os dois candidatos que chegaram ao segundo turno somaram, juntos, 14,1 milhões de votos a mais do que tinham no primeiro. A pergunta natural é: de onde saiu essa diferença?
Ela vem de três fontes, e é aqui que a análise começa a ficar interessante:
- Votos dos candidatos eliminados: os outros 10 candidatos do primeiro turno somaram 9,32 milhões de votos. No segundo turno, esses eleitores precisaram escolher de novo.
- Eleitores que só apareceram no segundo turno: 2,96 milhões de pessoas a mais foram votar. A abstenção caiu de 21,08% para 19,22%, a maior queda entre turnos já registrada.
- Quem desistiu do branco e do nulo: os votos brancos e nulos caíram de 5,98 milhões para 4,15 milhões. São 1,82 milhão de pessoas que, no segundo turno, escolheram um candidato.
Somando: 9,32 + 2,96 + 1,82 = 14,10 milhões. É exatamente o que os dois finalistas ganharam juntos. Quando a conta fecha assim, o analista ganha confiança de que entendeu o fenômeno.
Passo 1: fazer a pergunta certa
A pergunta "quem ganhou?" tem uma resposta só e não ensina nada novo. A pergunta "quantos votos estavam em jogo e para onde foram?" abre uma investigação. Esse é o primeiro trabalho de um analista: transformar uma curiosidade vaga numa pergunta que os dados conseguem responder.
Numa empresa acontece igual. "Como estão as vendas?" é uma pergunta fraca. "Quanto do faturamento deste mês veio de clientes novos, quanto de clientes que voltaram e quanto perdemos de quem parou de comprar?" é uma pergunta que muda decisões. Ela mostra onde agir: na prospecção, no relacionamento ou na retenção.
Uma boa pergunta tem três características: é mensurável, separa o resultado em partes e leva a uma ação. Antes de abrir qualquer planilha ou painel, vale gastar tempo nela.
Passo 2: ir à fonte oficial
Notícias são ótimas para contexto, mas cada veículo arredonda números de um jeito, publica em horários diferentes e às vezes mistura parcial com resultado final. Para a análise, usamos os arquivos de resultado do próprio TSE, estado por estado, nos dois turnos: comparecimento, votos brancos, votos nulos e votos de cada candidato.
Na empresa, a fonte oficial é o sistema que registra a operação: o ERP, o sistema de vendas, o financeiro. Relatórios exportados e ajustados à mão, planilhas copiadas de outras planilhas e números "de cabeça" são o equivalente às manchetes: úteis, mas não servem de base para a conta.
Ir à fonte também evita um problema comum: dois setores chegando à reunião com números diferentes para a mesma pergunta, e a discussão virando "qual planilha está certa" em vez de "o que vamos fazer".
Passo 3: cruzar bases que não conversam sozinhas
Nem toda resposta vem pronta. O TSE divulga o eleitorado de cada região e a taxa de abstenção de cada região, mas não publica, pronto, quantas pessoas a mais votaram em cada uma no segundo turno. Para chegar nesse número, foi preciso multiplicar o eleitorado pelo comparecimento de cada turno e comparar.
O resultado mostrou um retrato que nenhum dos dois dados mostrava sozinho: o Sudeste respondeu por cerca de 55% dos eleitores a mais, o Nordeste manteve a menor abstenção do país nos dois turnos, e o Norte foi a única região onde menos gente votou no segundo turno.
Fazendo a mesma conta por estado, somando os eleitores a mais e quem saiu do branco e do nulo, São Paulo, Minas Gerais e Bahia concentraram mais da metade desses 4,78 milhões de votos. Na outra ponta, Amazonas, Amapá, Acre, Roraima e Tocantins terminaram com saldo negativo.
No dia a dia de uma empresa, esse cruzamento é o que transforma dados soltos em indicador: vendas do ERP com metas da planilha do comercial, estoque com previsão de compras, contas a receber com histórico de atraso de cada cliente. Cada base sozinha diz pouco. Juntas, respondem perguntas de gestão.
Passo 4: conferir se a conta fecha
Este é o passo que mais separa uma análise confiável de um palpite com gráfico bonito. Depois de separar os 14,1 milhões em três origens, conferimos se a soma batia com o crescimento total dos dois finalistas. Bateu. Depois, conferimos se a soma dos 27 estados batia com o total nacional divulgado pelo TSE. Também bateu.
Se a conta não fechasse, haveria um erro em algum lugar: um dado faltando, uma base de outra data, um arredondamento acumulado. E o certo seria investigar antes de publicar.
Nas empresas, essa conferência evita decisões tomadas em cima de número errado. O faturamento do painel bate com o do financeiro? A soma das filiais bate com o total da empresa? O estoque do sistema bate com o inventário? Um bom BI já nasce com essas checagens, e a explicação de como cada número é calculado fica à vista de quem usa.
Passo 5: dizer o que o dado não mostra
Os dados do TSE são totais. Eles mostram o saldo, não quem trocou de voto. Não dá para afirmar, só com eles, que um eleitor específico de um candidato eliminado foi para um lado ou para o outro, nem como votaram os eleitores que apareceram no segundo turno. Parte das pessoas pode ter mudado de candidato, anulado ou deixado de votar, e o resultado final mostra apenas a soma desses movimentos.
Dizer isso com clareza não enfraquece a análise. Pelo contrário: mostra que quem a fez sabe até onde os números vão. Para ir além, seria preciso outro tipo de dado, como pesquisas de boca de urna ou uma análise seção por seção.
Em uma empresa, o mesmo cuidado vale ouro. Um painel pode mostrar que as vendas de uma região caíram, mas não explica sozinho se foi preço, concorrência, ruptura de estoque ou um vendedor a menos. O analista aponta onde olhar e o que falta saber, em vez de inventar uma causa que o dado não sustenta.
O resultado em números
Para quem quiser o resumo da análise, estes foram os principais achados:
- 14,1 milhões de votos entraram na disputa entre os turnos: 9,32 milhões dos candidatos eliminados, 2,96 milhões de eleitores a mais e 1,82 milhão que saíram do branco e do nulo.
- O candidato que terminou em segundo no primeiro turno precisava de cerca de 58% desses votos para virar o resultado; ficou com 73,6%. O que liderava o primeiro turno precisava de cerca de 42% para manter a vantagem e ficou com 26,4%.
- Os votos brancos caíram 37,8% e os nulos, 25,9%. Parte da queda dos nulos tem explicação simples: no primeiro turno, com doze candidatos e cinco cargos na mesma urna, mais gente digitou um número inexistente.
- O resultado final foi de 51,79% contra 48,21% dos votos válidos, uma diferença de 4,43 milhões de votos.
Como começar a fazer isso na sua empresa
A boa notícia é que a maioria das empresas já tem os dados necessários. Eles só estão espalhados em sistemas que não conversam entre si. Um caminho prático para começar:
- Escolha uma pergunta de gestão que hoje gera discussão, como "por que a margem caiu?" ou "quais clientes pararam de comprar?".
- Liste de onde vêm os dados para respondê-la: ERP, planilhas do comercial, sistema financeiro, atendimento.
- Defina as regras de cálculo por escrito, para que todo mundo use a mesma conta.
- Monte as conferências: o total do painel precisa bater com o total do sistema de origem.
- Coloque a resposta à vista de quem decide, atualizada sozinha, em vez de um relatório montado à mão todo mês.
Feito uma vez, esse processo se repete para a próxima pergunta, e cada vez mais rápido, porque as bases já estão conectadas.
Conclusão
A análise dos dados do TSE mostrou algo que as manchetes não mostravam: de onde vieram os votos que decidiram o segundo turno, região por região e estado por estado. Não foi preciso nenhum dado secreto, só dados públicos, as perguntas certas e o cuidado de conferir cada conta.
É exatamente isso que a Open Mind IA faz com os dados das empresas. Conectamos ERP, planilhas e sistemas, montamos as estatísticas e os indicadores que a gestão precisa e entregamos tudo em painéis no navegador, com a explicação de como cada número é calculado e acesso para a empresa inteira. Se o dado existe, a gente transforma em resposta. Veja alguns exemplos em nossos cases e no serviço de BI sob medida.
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